quarta-feira, 31 de julho de 2013

Sala Redenção – Cinema Universitário Apresenta! “CINEMA BRASILEIRO NA ESTRADA”.

Em agosto, a Sala Redenção – Cinema Universitário conta com mais uma curadoria especial. Fernanda Boff, realizadora audiovisual, e Regina Azevedo, jornalista – ambas especialistas em Cinema pela Unisinos – montam uma mostra composta de road movies brasileiros. No texto que segue, elas apresentam um possível recorte sobre o tema.

“Quando nasceram os filmes de estrada? Em Homero, no desejo de Ulysses retornar à casa? Nos primeiros documentários de cineastas-viajantes como Robert Flaherty? Na influência dos fotógrafos humanistas que, como Cartier-Bresson, cruzaram fronteiras para entender como viviam os outros, aqueles que não faziam parte de sua própria cultura?”

(SALLES, W. “Cinema, aspirinas e urubus une forma e geografia”. Folha de S. Paulo. São Paulo, 27 nov. 2005. Ilustrada, p. E6.)

A mostra Cinema Brasileiro na Estrada conta com uma seleção de filmes e documentários nacionais que se passam na estrada e que podem ser chamados de road movies. O gênero road movie vem de uma tradição da cinematografia norte-americana, surgido como desdobramento do gênero western, ligado à conquista do oeste. A expansão dos limites territoriais ocorrida durante a primeira metade do século XIX consagrou a estrada como um espaço de transformação e liberdade no imaginário norte-americano. Os road movies são uma das representações contemporâneas do nosso espírito aventureiro em busca de novas fronteiras. Pegar a estrada, seja em uma caminhonete ou até mesmo em uma bicicleta, é a versão mais viável ao homem comum dessa jornada em busca de sua identidade. Partir sem destino ou rumo ao desconhecido por rodovias que atravessam lugares insólitos é uma aventura que normalmente leva os protagonistas a algum tipo de transformação. Os filmes de estrada tratam de viagens nas quais os protagonistas, mais do que em busca de um destino, buscam encontrar sua identidade por meio de descobertas pessoais, rompendo fronteiras e vivenciando novas experiências. Na maioria das vezes, o filme não é regido por uma única situação-problema, como é convencional, mas por várias que surgem e são resolvidas conforme a história transcorre. A viagem, assim, é muito mais importante do que o destino e, em geral, coloca os protagonistas em contato com pessoas e situações fora do comum.

O filme de abertura da mostra é o emblemático Bye Bye Brazil (1980) de Cacá Diegues, que narra às viagens da “Caravana Rolidei”, grupo de artistas que se apresenta de forma itinerante e que revelam um Brasil muito diferente daquele retratado com o advento da televisão. Na mesma linha, seguem filmes contestatórios como Iracema, uma Transa Amazônica (1976), que foi proibido durante anos no país por retratar a real situação da Amazônia em uma época desenvolvimentista. Em Terra estrangeira (1996), de Walter Salles e Daniela Thomas, vemos a história de Paco, um jovem que vive em um país assolado pela crise em plena era Collor. A viagem do personagem, que parte para a terra natal da mãe que acaba de falecer, é conduzida por uma aventura marcada pela ganância e falta de perspectiva. Melhores condições de vida e o sonho da vida na metrópole carioca fazem parte de filmes como Cinema, aspirinas e urubus (2004) de Marcelo Gomes, que trata de encontros inusitados. O alemão Johan percorre o norte do Brasil vendendo medicamentos, e encontra Ranulpho, que sonha em ir ao Rio de Janeiro para buscar uma melhor condição econômica. Desse encontro de universos tão diferentes, surge uma amizade e os dois seguem juntos à viagem. A metrópole carioca também é o destino sonhado dos protagonistas do filme O caminho das nuvens (2003). Um casal e cinco filhos pequenos percorrem 3.200 quilômetros, da Paraíba até o Rio de Janeiro. O filme, baseado em uma história verídica, discute os limites entre sonho e realidade, em um país de contraste social, mas de miséria generalizada. A mostra terá um espaço dedicado aos road movies gaúchos. Em O mentiroso (1988), filme de comédia que satiriza o gênero, um grupo de amigos pega a estrada e após uma discussão com um vigilante rodoviário, essa viagem se transforma em uma odisséia sem retorno. A Última Estrada da Praia (2011) nos apresenta uma viagem ao litoral gaúcho feito por três amigos que vivem um triângulo amoroso e convivem com os medos de um rapaz que eles acabaram de conhecer e que não fala. Os documentários também ganham destaque na mostra. Descaminhos (2009) é um road movie sobre os trilhos de trem. São 8 mil quilômetros percorrendo comunidades que existem em torno de uma estrada férrea, mostrando a transformação de lugares pela presença ou desaparecimento do trem. Já em Caroneiros (2006) são 18 mil quilômetros percorridos dentro de dois fuscas dando carona pela América do Sul. Em Uma longa viagem (2012), o documentário e a encenação se misturam para recriar a história de Heitor, irmão da diretora do filme Lucia Murat, um rapaz mandado para o exterior pela família para evitar que se envolvesse na luta armada durante a ditadura. A proposta de Cinema brasileiro na estrada, mais do que dar uma pequena amostra da riqueza da filmografia nacional, é oferecer uma possibilidade de leitura do road movies, um gênero ainda pouco estudado dentro do cinema brasileiro (Fernanda Boff e Regina Azevedo, curadoras).


O QUÊ: Cinema Brasileiro na estrada

QUANDO: 01 a 30 agosto

ONDE: Sala Redenção – Cinema Universitário (Rua Eng. Luiz Englert, s/n., Campus Central da UFRGS

QUANTO: Entrada Franca


Acompanhe! Programação e sinopses dos filmes da Mostra “Cinema Brasileiro na estrada”.


Bye Bye Brazil (Brasil, 1980, 115 min) dir. Cacá Diegues
01 de agosto – 5ª feira – 16h
08 de agosto – 4ª feira – 19h
Considerada uma das maiores produções dos anos 70, o filme narra à história de um grupo de artistas mambembe que cruzam a Amazônia num caminhão chamado Caravana Rolidei. De cidade em cidade a Caravana Rolidei faz suas apresentações descobrindo um novo Brasil que está surgindo com a chegada da televisão.


Terra estrangeira (Brasil, 1996, 100 min) dir. Walter Salles e Daniela Thomaz
01 de agosto– 5ª feira – 19h
02 de agosto – 6ª feira – 16h
Após a morte da mãe e sem perspectivas de vida no Brasil em plena Era Collor, Paco decide viajar para Portugal, a terra natal da sua mãe. Paco aceita levar uma misteriosa encomenda em troca da passagem. Terra Estrangeira é uma visão anárquica de um país subdesenvolvido em plena crise econômica, um país que vive uma utopia social.


O mentiroso (Brasil, 1988, 101 min) dir. Werner Schünemann



02 de agosto – 6ª feira – 19h
15 de agosto – 3ª feira – 19h
22 de agosto – 5ª feira – 16h
Jonas, Ana, Wilson e Kátia caem na estrada, até que uma discussão entre Jonas e um vigilante rodoviário transforma a pequena viagem numa odisséia sem retorno. Uma comédia de estrada que satiriza os road movies.


Cinema, aspirinas e urubus (Brasil, 2004, 90 min) dir. Marcelo Gomes
05 de agosto – 2ª feira – 19h
06 de agosto – 3ª feira – 16h
27 de agosto– 3ª feira – 19h
Em 1942, no meio do sertão nordestino, dois homens vindos de mundos diferentes se encontram. Um deles é o alemão de nome Johann, que sai do Rio de Janeiro e dirige rumo ao Nordeste do Brasil num caminhão carregado de frascos de Aspirina® e filmes com propagandas do produto. Ranulpho, morador de uma pequena vila, faz o percurso inverso, ou seja, está indo buscar uma vida melhor no promissor e industrializado sudeste do país. Embora tão diferentes, a dupla parte em uma viagem em que cada um encontra o seu destino.


Tapete vermelho (Brasil, 2006, 102 min) dir. Luiz Alberto Pereira
06 de agosto – 3ª feira – 19h
07 de agosto – 4ª feira – 16h
22 de agosto – 5ª feira – 16h
Tapete vermelho é uma singela homenagem a Mazzaropi. Quinzinho mora no interior com sua família e faz uma promessa de levar seu filho até a cidade grande para assistir a um filme do artista no cinema. Determinado a cumprir a promessa, Quinzinho carrega o filho de cidade em cidade em busca de um cinema que possa exibir o filme.


O caminho das nuvens (Brasil, 2003, 85 min) dir. Vicente Amorin
08 de agosto – 5ªfeira – 19h
09 de agosto – 6ªfeira – 16h
28 de agosto – 4ª feira – 16h
O caminho das nuvens é a história de um casal e cinco filhos que partem de bicicleta da Paraíba até o Rio de Janeiro. Romão, o pai, está em busca de um sonho: um salário que lhe pague 1000 reais. São 3.200 quilômetros enfrentando a fome, a sede, o calor e a violência em busca de uma vida melhor.


Árido movie (Brasil, 2005, 100 min) dir. Lírio Ferreira



09 de agosto – 6ª feira – 19h
12 de agosto – 2ªfeira – 16h
29 de agosto – 5ªfeira – 16h
Árido Movie mostra o universo contemporâneo de um sertão onde o excesso de informação convive com a falta de água. Onde é mais fácil acessar a Internet do que usar a descarga doméstica. Um meteorologista de uma rede de TV retorna a sua cidade natal, motivado pelo brutal assassinato de seu pai. Ali, depara-se com elementos que compõem a geografia humana da região (índios, políticos conservadores, líderes espirituais) e com suas memórias familiares.


Caroneiros (Brasil, 2006, 52 min) dir. Martina Rupp
12 de agosto – 2ª feira – 19h
13 de agosto – 3ª feira – 16h
18 mil quilômetros em dois fuscas dando carona pela América do Sul. Dentro dos carros brasileiros, argentinos, chilenos, paraguaios e uruguaios expõem seus pontos de vista sobre o intercâmbio cultural que existe, ou não, entre os países, as rixas e os preconceitos, o domínio norte-americano e nossa educação. Caroneiros é um projeto independente que acredita na discussão desses temas para a preservação da identidade latino-americana.


Central do Brasil (Brasil, 1998, 113 min) dir. Walter Salles
14 de agosto– 4ª feira – 19h
29 de agosto – 5ª feira – 19h
Dora (Fernanda Montenegro) escreve cartas para analfabetos na Central do Brasil. Nos relatos que ela ouve e transcreve, surge um Brasil desconhecido e fascinante. Uma das clientes de Dora é Ana, que vem escrever uma carta com seu filho, Josué (Vinícius de Oliveira), um garoto de nove anos, que sonha encontrar o pai que nunca conheceu. Por circunstâncias do destino, Dora e Vinícius partem em uma viagem ao coração do Brasil, que irá transformar os personagens para sempre.


A última estrada da praia (Brasil, 2011, 93 min) dir. Fabiano de Souza



15 de agosto – 5ª feira – 19h
19 de agosto – 6ª feira – 16h
Leo, Norberto e Paula são muito mais que amigos. No início de uma viagem para o litoral, conhecem um estranho que não fala. Os quatro partem em uma viagem em que o sabor do percurso é vivenciado sem pressa. Enquanto o amigo silencioso se defronta com seus temores, Leo, Norberto e Paula mergulham nas fronteiras de um relacionamento triangular. Nas areias intermináveis das praias gaúchas, eles descobrem que é impossível ser alegre o tempo inteiro.


Descaminhos (Brasil, 2009, 75 min) dir. Marília Rocha, Luiz Felipe Fernandes, Alexandre Baxter



16 de agosto – 6ª feira – 19h
19 de agosto– 2ª feira – 16h
Descaminhos é um road movie sobre trilhos que parte de Minas Gerais, atravessa quatro estados, 55 cidades e 8 mil quilômetros de linhas férreas. Entre paisagens naturais e urbanas, o documentário propõe uma viagem antropológica pelas cidades e pela vida das comunidades à margem de ferrovias. Um registro do passado, por meio de memórias e uma observação do espaço contemporâneo a partir do cotidiano e da transformação de lugares provocada pela presença ou desaparecimento do trem.


Uma longa viagem (Brasil, 2012, 97 min) dir. Lucia Murat
19 de agosto – 2ª feira – 19h
20 de agosto – 3ª feira – 16h
O longa mistura documentário e encenação para recriar as viagens que o irmão da cineasta, Heitor, fez entre 1969 e 1978, quando foi enviado ao exterior pela família para evitar que se envolvesse com a luta armada contra a ditadura. O filme é construído a partir das cartas que Heitor enviou a família durante esses nove anos, contrapostas a depoimentos do personagem real e a comentários da cineasta sobre sua vivência da época.


Iracema – uma transa Amazônica (Brasil, 1976, 91 min) dir. Jorge Bodansky e Orlando Senna
20 de agosto – 3ª feira – 19h
21 de agosto – 4ª feira – 16h
Em 1974, em plena ditadura, surge o filme que faz um contraponto à propaganda oficial da época sobre a Amazônia, revelando as queimadas, o trabalho escravo e a prostituição infantil através da história da menina ribeirinha Iracema. Proibido durante seis anos no Brasil, recebeu inúmeros prêmios em festivais internacionais e, em 1980, quando liberado, foi o grande vencedor do Festival de Brasília.


O palhaço (Brasil, 2011, 88 min) dir. Selton Mello
22 de novembro – 5ª feira – 19h
23 de novembro – 6ª feira – 19h
30 de novembro – 6ª feira – 16h
Benjamim (Selton Mello) trabalha no Circo Esperança junto com seu pai Valdemar (Paulo José). Juntos, eles formam a dupla de palhaços Pangaré & Puro Sangue e fazem a alegria da plateia. Mas a vida anda sem graça para Benjamin, que passa por uma crise existencial e assim, volta e meia, pensa em abandonar Lola (Giselle Mota), a mulher que cospe fogo, os irmãos Lorotta (Álamo Facó e Hossen Minussi), Dona Zaira (Teuda Bara) e o resto dos amigos da trupe. Seu pai e amigos lamentam o que está acontecendo com o companheiro, mas entendem que ele precisa encontrar seu caminho por conta própria.


Hotel Atlântico (Brasil, 2009, 107 min) dir. Suzana Amaral
23 de agosto – 6ª feira – 19h
26 de agosto – 2ª feira – 16h
Um ator desempregado parte da cidade, sem bagagem ou planos, em direção ao interior do país. Durante sua jornada, se depara com situações absurdas, contraditórias e inesperadas. O filme é baseado no livro de João Gilberto Noll, Hotel Atlântico.


Estrada para Ythaca (Brasil, 2010, 70 min) dir. Guto Parente, Luiz Pretti, Pedro Diógenes, Ricardo Pretti
26 de agosto – 2ª feira – 19h
27 de agosto – 3ª feira – 19h
30 de agosto – 6ª feira – 19h
Quatro amigos em luto, interpretados pelos próprios diretores do filme, partem em uma viagem depois de uma noite de bebedeira. Como forma de se restabelecerem, os quatro partem para Ythaca, terra natal do amigo falecido, em uma jornada de amizade, silêncio e descobertas.


Fonte: Sala Redenção – Cinema Universitário, através de Tânia Cardoso de Cardoso.

Realização:




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